Augusto dos Anjos
Existe, além das forças do sensório,
Imensurável zona subjetiva,
Fora de toda a física objetiva,
Em seu potencialismo vibratório.
Fragmento de Deus, Brama ou Siva,
No homem, em complexus transitório
De matéria e espírito incorpóreo,
Toda a expressão da substância viva.
Região de energia indefinida,
Onde toda a matéria conhecida
Nasce de estranhas e insondáveis grutas!
Fonte de eterna potencialidade
– Templo do ego e da imortalidade –
Mundo real das causas absolutas.
Sala de estudo de uma academia.
Início de lições maravilhosas,
Explicações estranhas, misteriosas,
Sobre a química, a física e a biologia.
O sentimento – um professor dizia –
Acha-se até na essência das mucosas.
É a sensação das células nervosas,
Segundo as deduções da anatomia.
“O homem” – e continuava regougando,
Como figura atlética exclamando,
Nas concepções fantásticas do nada –
“O homem nada mais é do que destroços,
reduz-se a um mecanismo feito de ossos,
Revestidos de carne ensanguentada”.
Ri, corpo humano, o riso dos palhaços,
Nos espasmos das articulações,
Inda mesmo com a carne em afecções,
Caindo nua, em pútridos pedaços.
Ri, na lubricidade dos devassos
E na volúpia das corrupções,
Inda que se amarfanhem corações
Com teus risos irônicos e crassos.
Ri, sempre, porque a alma, essa, paupérrima,
Dia há de vir se encontrará misérrima,
Com o seu quinhão de lágrimas nos ermos…
Ri, corpo humano, esquálido fantasma,
No mesmo barro obscuro, onde se plasma
A figura dos grandes estafermos.
”Antes o fúnebre abismo, o húmus e os vermes,
Que rever-me em fatídicos destroços.
No arcabouço simétrico dos ossos,
Espolinhando-se entre as epidermes.
Antes as podridões atrás e inermes,
Ser cadáver horrífero nos fossos,
Do corvo exposto aos pretos bicos grossos
Que jungir-me a enauseantes blastodermes… ”
Assim clamou a alma, em ânsias pungitivas,
No limiar do abismo ensôfrego e hiante
Da carne onívra, imunda e material;
Mas no impulso de forças decisivas,
Imergiu-se o corpo degradante,
Na atração do mistério universal.
A ciência terrígena procura
Num labor, muita vez, medonho e inglório,
Tocar a sutileza do incorpóreo
No plano subjetivo da alma pura!
Mas só encontra a gênese obscura
Das células do sensório,
Nas quais há sempre o traço merencório
Das incapacidades da estrutura.
Existe sobre a incógnita psique,
Que a infinita ciência de Richet
Quis prender entre os cárceres das normas,
Constelações de luz e abismo tredos,
Na heterogeneidade dos segredos,
Das perfeições orgânicas das formas!
Espírito Augusto dos Anjos.
São Paulo, 29/3/1937.
Este soneto e o denominado “Com o Evangelho” de João de Deus, foram recebidos na S. Metapsíquica de São Paulo, quando da “Semana Metapsíquica” ali realizada de 28 a 31-3-1937. Foi feito o histórico da mesma e em cujo transcurso houve referência às tentativas que alguns metapsiquistas fizeram por colocar a Metapsíquica — orgulhosa concepção de Richet — em lugar do Espiritismo, que sem filiações acadêmicas, além de atender, pelo experimentalismo mais rigoroso, as exigências da Verdade comprovadora dos seus fenômenos, repondo no seu legítimo lugar, a insubstituível moral do Senhor Jesus, que vem ainda realizar a curto espaço o suspirado sincretismo religioso, afora a reforma ética do mundo.
Nos sublimes impérios deslumbrantes.
Do mistério das zonas subjetivas,
Em transubstanciações definitivas,
Vive a matéria em células radiantes.
Expressões fenomênicas, constantes,
Nas eternas ações das forças vivas,
Desde a treva das noites primitivas
Dos eternos princípios inquietantes.
Em todos os fenômenos profundos
Dos mecanismos físicos dos mundos
A matéria é a expressão primordial,
Dentro do seu aspecto transitório,
Sob a função passiva de envoltório
Das essências do espírito imortal.
Na agregação da carne e dos helmintos
No complexo atômico que enferma,
O homem é, desde a mônada do espermas,
Rei dos vermes carnívoros, famintos;
E analisando eternos labirintos,
Na incompreensibilidade do palerma,
O homo sapiens do podre blastoderma
Vive a febre danada dos instintos.
Homens!… Visões de mônadas divinas,
Encarceradas em cadaverinas,
Num turbilhão de sânie e de matérias…
É preferível, entre desconfortos
Ser a lama terrível dos abortos
Que viver nossas trágicas misérias.
Algema tenebrosa é a carne louca,
Onde o espírito, em lágrimas, se prende
Perambulando como um triste duende,
Bebendo o pus das fístulas da boca.
Viver entre os sentidos incompletos,
Na existência das coisas fragmentárias,
Começando nas dores solitárias,
Da vida melancólica dos fetos.
Vaso de tegumentos e de humores
É o corpo, imagem viva do defunto,
O miserabilíssimo transunto
Das condições mais tristes e inferiores.
Desprezar toda a luz, radiosa e viva
Para viver na carne é descer quase
Da consciência divina à horrenda fase
Da irracionalidade primitiva.
Carne!… Nossa amargura original,
Antes sobre o planeta nunca houvesse
O princípio ancestral da tua espécie,
Nos mistérios da vida universal…
Efêmero é esse orgulho, homem, que guardas,
Nesse mundo de angústia e de dores,
Onde soluçam seres inferiores
Entre milhões de células bastardas.
É o teu dia de dor, grande e profundo,
Sob o eterno mistério indevassado,
– És o triste fantasma encarcerado
Nas leis organogênicas do mundo.
O corpo, que é teu gozo alto e triunfante,
Que embelezas na Terra e em que presumes
Uma taça de angélicos perfumes,
É um vaso tenebroso e repugnante.
Vive nas luzes, onde não se esbarra
– A ventura que sonhas e desejas,
Pois sobre o mundo a boca com que beijas
É a mesma que vomita, cospe e escarra,
Mas se vives na Terra, por teu mal,
Cheio de sonho e dor, angústia e ânsia.
Todas as lutas são a substância
Do progresso infinito e universal.
Vastidões de beleza intraduzível,
Fulgurações entre cósmicos flagelos,
Ideações de fúlgidos castelos
Onde mora a beleza indefinível.
Ansiedades trágicas, supremas,
Na formação das grandes nebulosas…
Transubstanciações misteriosas
Gerando os organismos dos sistemas.
Focos de potentíssima atração
As moléculas e átomos dispersos,
Nos elementos de elaboração
De grandiosos e lindos universos.
Luminosas esteiras de cometas,
Formosos em elipses prolongadas,
Graciosas figuras de planetas
Emergindo das cósmicas camadas.
Meteoros celestes, deslumbrantes,
Nas excelsas alturas transcendentes,
Onde vibram os sóis incandescentes,
Asteroides e estrelas fulgurantes.
Intensidade bela de harmonia
Que agora sinto, vejo e que percebo,
Grandiosidades do que não concebo
Nos apogeus das hiperestesias.
E, sobretudo, emanam das esferas
Os equilíbrios das imensidades,
O eterno canto de sublimidades,
Clarões de luzes nas atmosferas…
Sobre todas as coisas assombrosas,
Fluídos e criações de pensamentos,
Todas as maravilhas e portentos,
Há uma luz entre as luzes mais radiosas.
É o clarão poderoso, indestrutível,
Que vem das profundezas do passado
A luz de Deus, à força do incriado
Na exteriorização indescritível.
Há no universo um estranho dinamismo,
Na grandeza de todos os cenários,
Nos aspectos dos orbes multifários,
Cantando o hino triunfal do transformismo.
É o sagrado e divino esoterismo
Dos sublimes anseios unitários
Que vem do macrocosmo aos protozoários
E une o céu ao minúsculo organismo!
Tudo é beleza, da beleza ignota,
Seguindo a mesma estrada a mesma rota,
Da luz, fulgor de Deus no éter disperso!
E o homem, só, no seu dia miserando,
Solta o “ai” doloroso e formidando
De um fantasma gemendo no universo!
Houve tempo em que a ciência positiva,
Na aridez de seu método ilusório,
Construía o castelo transitório
Da grande negação definitiva.
Tudo era a matéria primitiva
No centro do seu modus vibratório,
Impressionando o mundo do sensório
Na eterna vibração da força viva.
Mas Kardec abre as últimas cortinas
E sobre o mundo de cadaverinas,
Apresenta luz gloriosa e forte.
Cai a muralha do materialismo,
E a fé raciocinada vence o abismo,
Transpondo a escuridão da própria morte.
Desses misteriosíssimos assentos
Onde a morte mirífica nos leva,
Contemplamos o cárcere de treva,
Onde vivem os lobos famulentos.
Ei-los, em golpes rudes e violentos,
Desde a hora tristíssima e primeva
De traição e de dor de Adão e Eva
Sobre o mundo de sangue e de excrementos.
Abaixo os sonhos da “toga pretexta”
Que a Terra tem somente a última besta,
Vivendo o imperativo do mais forte;
Mundo, onde toda a luz se desagrega
E onde uma humanidade surda e cega
Procura, em ruínas, sua própria morte.
Para as ânsias do espírito liberto
A dor maior, a dor das grandes dores,
É renascer nos mundos inferiores,
Retomando o caminho escuro e incerto.
Martirológio, mísero, reaberto,
Entre angústia, misérias e pavores,
Na visão dos micróbios destruidores
Ou de areias de fogo de um deserto.
A alma livre do implexo do mundo
Vive da paz, do amor de que me inundo,
Longe da confusão que o mundo encerra…
Reencarnar-se! Eis o trágico tropeço
De se voltar ao triste recomeço
Das podridões orgânicas da Terra!…
Reencarnar-me?… Deixar a luz divina,
Justapondo-me a pútridos espermas,
Testemunhar a minha própria ruína
E vestir-me de células enfermas…
Reviver solidões amargas e ermas
De um mundo a cuja face se destina
A descendência obscura dos palermas,
Que em obras podres de desilumina?
Que destino infeliz, igualitário!
Recolher-me às excrescências de um ovário,
Sob um rude mistério incompreensível;
Verme do esquecimento em nove meses…
E ressurgir num invólucro de fezes;
Mas tudo isso é da lei intransgredível,
Na ilusão material da carne espúria,
Sob o acervo das células taradas,
Choram de dor as almas condenadas
Ao cárcere de lágrima e penúria.
Entre as sombras das míseras estradas,
Vê-se a guerra da inveja e da luxúria,
Esfacelando com medonha fúria
O coração das almas bem formadas.
É nesse turbilhão de dor e de ânsia
Que o homem procura a eterna substância
Da verdade suprema, alta, imortal.
Deixando corpos pelos cemitérios,
A alma decifra o livro dos mistérios
De amor da vida universal.
“Por que, meu Deus, a carne inda me prende,
Porque me arrasto como um triste duende,
Em miserabilíssimos despojos?”
Era o ser encarnado que falava,
Amarguradas queixas da alma escrava,
No mais horrendo dos martirológios.
Como pude descer nos labirintos,
Onde os lobos vorazes dos instintos
Nos consomem nos dentes esfaimados;
E por que idealizando puros gozos,
Busco na carne abismo tenebrosos,
Abominado todos os pecados?“
“Sou no mundo um fantasma solitário,
Só porque, um dia, um espermatozoário
Uniu-se, ansioso, ao óvulo fecundo.
E emergindo as ânsias e dos partos,
Suguei, unindo a boca a uns seios fartos,
Substâncias misérrimas do mundo… ”
“Desde esse dia tormentoso e aflito
De intensa dor, envergo o sambenito
De matérias iguais aos polipeiros,
Entre as disposições hereditárias,
Chorando as mesmas dores milenárias
Dos que gemeram nesses cativeiros!”
Nada, contudo, lhe respondeu, de perto…
A alma, porém, sozinha, no deserto,
Viu sobre o mundo um monte de destroços;
Sentiu, no além, a vida verdadeira,
Mas contemplando, pela Terra inteira,
A carne infame, chocalhando os ossos!…
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