26 novembro 2022

Guardemos o cuidado


“…  mas nada é puro para os contaminados e infiéis.” – Paulo. (Tito, 1:15.)

O homem enxerga sempre através da visão interior.
Com as cores que usa por dentro, julga os aspectos de fora.
Pelo que sente, examina os sentimentos alheios.
Na conduta dos outros, supõe encontrar os meios e fins das ações que lhe são peculiares.
Daí o imperativo de grande vigilância para que a nossa consciência não se contamine pelo mal.
Quando a sombra vagueia em nossa mente, não vislumbramos senão sombras em toda parte.
Junto das manifestações do amor mais puro, imaginamos alucinações carnais.
Se encontramos um companheiro trajado com louvável apuro, pensamos em vaidade.
Ante o amigo chamado à carreira pública, mentalizamos a tirania política.
Se o vizinho sabe economizar com perfeito aproveitamento da oportunidade, fixamo-lo com desconfiança e costumamos tecer longas reflexões em torno de apropriações indébitas.
Quando ouvimos um amigo na defesa justa, usando a energia que lhe compete, relegamo-lo, de imediato, à categoria dos intratáveis.
Quando a treva se estende, na intimidade de nossa vida, deploráveis alterações nos atingem os pensamentos.
Virtudes, nessas circunstâncias, jamais são vistas. Os males, contudo, sobram sempre.
Os mais largos gestos de bênção recebem lastimáveis interpretações.
Guardemos cuidado toda vez que formos visitados pela inveja, pelo ciúme, pela suspeita ou pela maledicência.
Casos intrincados existem nos quais o silêncio é o remédio bendito e eficaz, porque, sem dúvida, cada espírito observa o caminho ou o caminheiro, segundo a visão clara ou escura de que dispõe.

Espírito Emmanuel, do livro Fonte Viva, psicografado por Chico Xavier.

25 novembro 2022

Conto simples


Malaquias Furtado, conhecido libertino, reconhecendo, enfim, que mais valia o dever cumprido às aventuras mundanas, rendeu-se à necessidade imperativa de renovação espiritual, para a reforma da vida. Para isto, refugiou-se à inspiração do Padre Elias Gomes, famoso cura de almas, imaginando nele o guia ideal.
Recebido cordialmente pelo sacerdote, confessou-lhe as deploráveis experiências em que se emaranhara, obtendo calorosa doutrinação, como vaso imundo em processo de lavagem na tina de água fervente.
Malaquias transformado cumulou-se de juras e promessas, que procurou cumprir com sinceridade e rigor.
Quando a tentação lhe assaltava o espírito honesto, voltava a ajoelhar-se aos pés do mentor, suplicando:
—Bom amigo, sinto-me perturbado por desejos inferiores…  Tenebrosos pensamentos agitam minh’alma…  Que fazer para encontrar o caminho do Céu?
Padre Elias logo respondia calmo:
—Filho, consagre-se a Deus e olvide Satã. Guarde castidade, cultive humildade, paciência e pobreza. A salvação cabe àqueles que trilham a subida escabrosa da virtude.
O convertido voltava à arena cotidiana e sufocava os reclamos da carne indignada, curtindo provações duras que aos poucos lhe burilavam o espírito.
Trabalhava, servia sem alarde e procurava suportar toda espécie de infortúnio com inexcedível heroísmo.
Eis, porém, novo dia de mais vivas tribulações, e Malaquias regressava ao orientador, exclamando:
—Devotado protetor, tenho sofrido calúnia e ingratidão. A ideia de vingança domina-me.
Tenho fogo na alma. Que fazer para me sustentar no roteiro do Paraíso?
O ministro da fé esclarecia, sereno:
—Tenha paciência, meu filho, muita paciência. Para consolidarmos em nós a tranquilidade, é imperioso perdoar infinitamente. Não nos esqueçamos dos velhos ensinamentos.
Desculpemo-nos até setenta vezes sete, oremos pelos nossos inimigos e perseguidores…
Quem ofende, condena-se; quem exerce a tolerância fraterna, exalta-se.
Malaquias aceitava, confiante, as ponderações ouvidas e tornava, confortado, às lides que o Céu lhe reservara.
Devolvia o bem pelo mal e continuava, na condição do discípulo fervoroso, experimentando os conselhos obtidos, disciplinando os seus sentimentos, sorrindo para os algozes, cedendo aos adversários e mantendo inalterável submissão ao que considerava como sendo as imposições divinas.
Ressurgiram, porém, outras ocasiões de conflito para o criterioso aprendiz, e logo se apressava ele em conchegar-se à sabedoria do pastor, clamando, ansiado:
—Meu padre, acho-me fatigado, enfermo, sem rumo certo…  Familiares, aos quais prestei assistência e socorro em outros tempos, abandonaram-me sem comiseração pelas minhas fraquezas e sofrimentos. Minha esposa, vendo-me imprestável, receou o sacrifício que a nossa união lhe impunha e aliou-se aos nossos filhos maiores, hoje casados, contra mim…  Vivo sem ninguém…  Por ninharias, antigos credores de minha casa me cercam de ameaças sem termo…  Tenho a impressão de que o inferno se instalou dentro de mim.
Debalde busco a claridade da oração, e não mais a encontro. Padre, padre, que fazer para não me desviar da estrada celeste?
O guia, na atitude convencional dos grandes inspirados, emitindo a palavra doce e fitando os olhos no céu, respondia convicto:
—Não se deixe enredar em ciladas e tentações! A fé remove montanhas! Quem se sentirá só, depois de encontrar na Humanidade a grande família? Nossos pais e nossos filhos respiram em toda parte. Onde alguém esteja lutando, aí possuímos nosso irmão. Não se perca no desânimo destrutivo. Quem se dirige para Deus não perde os minutos na peregrinação do bem. Se há dificuldades e sofrimentos, a coragem é o sustento do espírito na estrada para o mais alto. Sobretudo, meu filho, não creia na enfermidade. A doença é alguma coisa que depende de nós. A imaginação superexcitada improvisa monstros para o nosso corpo, mas a alma robusta na confiança, embora viva de pés na Terra, mantém o coração voltado para o Senhor, cada dia servindo mais intensamente na sementeira de luz e de amor. Não se agrilhoe a simples ninharia…
O crente leal contemplava o instrutor, como quem se via agraciado pela presença de um plenipotenciário divino.
Verteu copiosas lágrimas e indagou, por fim:
—E se eu pautar pensamentos e atitudes nessas linhas, encontrarei a passagem para o céu?
—Como não? – falou o sacerdote, complacente e bem-humorado.
E numa definição, espetacular:
—A virtude é divino passaporte para o Paraíso.
Malaquias tornou à luta e aplicou o que aprendera.
Olvidou a moléstia e dedicou-se ao trabalho constante; transformou a solidão em serviço a todos e, cultivando a oração e a bondade, acabou seus dias, de consciência tranquila.
Aguardava-o à cabeceira um anjo, que, presto, o arrebatou ao País da Luz.
Participando, agora, do séquito de santos anônimos, o antigo devoto era raramente lembrado na Terra. Vivera servindo, não obstante as deploráveis experiências do início, e, por isso, de tempo não dispusera para cuidar da propaganda do seu nome. Era, contudo, um dos príncipes mais felizes da Corte Celestial. Não contava tempo, nem era forçado à contemplação das misérias humanas.
Acontece, porém, que um dia se ouviu entre as estrelas um chamado insistente para ele.
Vinha do Inferno, diretamente da moradia de Satanás.
Malaquias não se fez rogado.
Solicitou permissão e desceu, desceu, desceu…  Quando se viu no círculo das trevas infernais, encontrou quem lhe invocava o nome: era justamente o Padre Elias Gomes, que lhe estendia os braços e suplicava:
—Malaquias! Malaquias! Compadeça-te de mim! Ensine-me! Onde encontrarei o Caminho para o Céu?…

Acautele-se no mundo quem oriente, quem dirija e quem aconselhe. Quase todos nós, os que sabemos indicar o bom caminho aos pés alheios, esbarramos, além do túmulo, com a mesma surpresa do sacerdote.

Espírito Paulo Barreto, do livro Falando à Terra. Página recebida por Chico Xavier.

24 novembro 2022

Nosso material de lição


Educandário - imagem da internet

Criatura alguma conseguirá partilhar o trabalho de várias comunidades ao mesmo tempo, não obstante a pessoa, por seus atos, influi indiretamente no conjunto da Humanidade.
Cada um de nós, estejamos encarnados ou desencarnados em serviço na Crosta Terrestre, vive jungido a um grupo de companheiros que constituem laços do pretérito ou instrumentos da hora, junto dos quais somos convidados a educar a vida e o coração para a Existência Maior.
Semelhantes sócios de ideal parecer-nos-ão, às vezes, inadequados para nós, mas é preciso considerar que, provavelmente no conceito que fazem de nós, nos julgarão também impróprios para eles. Forçoso reconhecer que são agora o que são, como somos neste momento o que temos sido até hoje.
As Diretrizes Divinas não nos reuniram, por acaso, uns com os outros.
Não dispomos de recurso bastante para conhecer circunstanciadamente os propósitos da Justiça Real. Sabemos que nos concede o melhor que sejamos capazes de receber para realizarmos o melhor que possamos fazer na hora que passa.
Usemos o amor que o Evangelho nos indica a fim de que se nos reduzam as deficiências recíprocas. Imperioso amá-los quais se nos fossem familiares queridos.
Agradecer aos mais virtuosos o conforto com que nos alimentam a alma e auxiliar os que se nos mostrem menos seguros.
Seguir o exemplo dos valorosos no dinamismo construtivo e apoiar os tíbios que tropeçam a cada passo da tarefa a desenvolver. Sentir-lhes os percalços, compartir-lhes os regozijos.
Recolher a inspiração dos que acertam e amparar os que se transviam.
Escutar com atenção os que ensinam e ouvir com paciência os que se desequilibram nos labirintos da necessidade.
Estimular as mínimas aspirações que entremostrem no rumo da correção, permanecendo justos para que a fraternidade jamais lisonjeie o mal naqueles que amamos.
Saber tocá-los no sentimento, sem converter a sinceridade em censura e sem transformar a bondade em fraqueza, para que não se emaranhem nas armadilhas da ilusão.
Entender que sem eles seríamos quais alunos obrigados à frequência da escola, sem material de lição.
Em suma, aceitar o campo da vivência cotidiana como o educandário mais digno em que possamos estagiar, provisoriamente internados pela Paternidade Comum, e do qual não sairemos senão para a repetência das provas, se não tivermos notas de aproveitamento que nos recomendem a equipes superiores.
Para isso, guardemos por norma a realização de benefícios generalizados a fim de que a rotina improdutiva não nos detenha à margem, adiando o nosso acesso à verdadeira compreensão.

Espírito André Luiz, do Livro Estude e Viva, psicografado por Chico Xavier.

23 novembro 2022

Obsessão


Certamente que você deve olhar para a frente, onde novas descobertas descerram horizontes ilimitados, e não para trás.
Tudo afirma o poder da máquina. Dispõem os homens, agora, de invenções, a fim de acompanhar a resolução científica, mas em todo o mundo, à nossa volta, há uma grande escuridão espiritual. Em toda parte, podemos observar a frustração, a dúvida, a aflição e o medo do futuro.
Muitos parecem hoje novos-ricos e novos-pobres na verdade espiritual. A Ciência está iluminando aspectos exteriores da vida, enquanto crises de ansiedade a estão danificando por dentro. O mundo nos parece imenso aprendizado sob a investida de perigosos inimigos da alma.
Que pode ser feito sobre isso? Devemos continuar sentados e aplaudir? Quando nego ajuda ao meu irmão, nego-a a mim mesmo.
Teremos de penetrar mais nesse problema, porque estamos imersos nele.
Aqui e ali, devemos desviar-nos do nosso caminho para ajudar o semelhante desencorajado e abandonado.
Depois da morte, no mundo espiritual, compreendemos isso. E você?
Você e eu podemos estar firmes com a verdade, mas nenhum de nós está livre de culpa.
Falhamos mais frequentemente do que pensamos. Em outras palavras, caímos facilmente na fraqueza, no egoísmo, na intolerância, na crueldade, ou na impaciência. Sempre que isso acontece, Espíritos obsessores exercem sua influência sobre você. A insanidade pode eclodir. Então você deve orar, a fim de encontrar um meio prático de libertar-se.
Acima de tudo, coopere. Busque o Bem. Você pode ajudar os outros, porque nunca está só. Sempre que se precisa de ajuda, Deus está por perto. O espírito inferior deve tornar-se homem verdadeiro, antes de ser anjo. Todos esses chamados demônios são seres humanos. Que possamos abençoá-los e dar-lhes mais amor.

Espírito Ernest O’Brien, do livro Entre Irmãos de Outras Terras. Página recebida em inglês por Chico Xavier, em Nova Iorque, NI, EUA. 15 de Julho de 1965.

22 novembro 2022

Experiências pessoais


TEMA — Experiências perigosas na esfera dos entes queridos.

Sustentar a campanha de esclarecimento contra a influência do mal, preservando-nos contra a criminalidade, é dever nosso.
Em nos referindo, porém, ao plano familiar, surge sempre o instante em que somos constrangidos a ver alguns dos nossos entes queridos à beira de experiências pessoais que consideramos difíceis ou dolorosas.
Nessas ocasiões, supomos perceber toda a extensão dos perigos a que se expõem e costumamos temer por eles; às vezes, caminham na direção de graves riscos que conhecemos de oitiva; noutras circunstâncias, dirigem-se para situações embaraçosas, em cujas correntes de sombra admitimos haver, noutro tempo, sofrido ou navegado.
Que fazer em lances desses, nos quais surpreendemos corações amados, à feição de viajores desprevenidos, escalando o monte agressivo da tentação, ameaçados por avalanches que talvez lhes arrasem as melhores possibilidades da existência?
Antes de tudo, reconheçamos que nenhuma criatura se sente feliz com as nossas intervenções indébitas, no sentido de lhes cercear a liberdade de tentar, por si mesmas, a construção da própria felicidade.
Cada um de nós é um mundo por si, porque o Criador nos dotou a cada um de características individuais, inconfundíveis.
Emoções e pensamentos, tanto quanto as impressões digitais, variam de pessoa a pessoa; consequentemente, determinados caminhos que nos fizeram menos felizes, em outra época, serão provavelmente os mais adequados à edificação da vitória espiritual sonhada pelos entes que amamos, enquanto que certas criaturas que nos parecem menos simpáticas serão possivelmente as mais capazes de resolver-lhes os problemas que, talvez, sem o concurso dessas mesmas criaturas, permanecessem indefinidamente insolúveis. Por outro lado, as circunstâncias que rodeiam agora os seres que abençoamos com a nossa extremada afeição podem não ser idênticas àquelas com que fomos defrontados, nos dias que se foram, e, muita vez, nas condições em que falimos, revelar-se-ão eles muito mais vigorosos que nós mesmos, impondo-se a ocorrências desagradáveis e criando talvez respeitáveis padrões de conduta para o reconforto e a segurança de muitos.
Tenhamos, assim, suficiente cautela para não ferir a independência pessoal daqueles a quem amamos, neles enxergando filhos de Deus, quanto nós próprios, com necessidades semelhantes às nossas, guardando o direito de construir suas vidas, segundo o preço das experiências que se proponham a pagar, no mesmo critério com que temos resgatado o custo das nossas. E sempre que os vejamos em supostos perigos, saibamos que a melhor forma de auxílio que lhes poderemos prestar será invariavelmente o amparo da oração e a bênção da boa palavra com que se sintam encorajados a trabalhar e servir, lutar e vencer com o apoio do Bem.

Espírito Emmanuel, do livro Encontro Marcado, psicografado por Chico Xavier.