18 agosto 2022

Reencarnações estranhas


Comentávamos, em grupo de amigos, com muito interesse, os casos de crianças recém-nascidas que trazem no próprio corpo os restos de fetos frustrados ou supostamente frustrados, especialmente determinados casos que a imprensa vez ou outra veicula. Um amigo registrou a pergunta que deveríamos endereçar aos amigos espirituais.
Em nossa reunião pública de sábado, depois de havermos estudado a questão 344 de O Livro dos Espíritos, o poeta Epiphanio Leite escreveu o soneto “Vingança e Teratologia”.

Francisco Cândido Xavier.

Vingança e teratologia

(Resposta ao amigo que indagou sobre a causa pela qual um recém-nato pode trazer um corpo frustrado na sua própria organização fisiológica, nas ocorrências da reencarnação).

Ei-lo desencarnado e a sombra a que se entrega,
Triste irmão vingador… Pragueja, grita, ausculta…
Lembra a mão que o prostrara e a mágoa se lhe avulta,
Vítima embora, esvai-se em paixão bruta e cega!…

Tenta extinguir em vão a imagem que carrega,
A face do rival faz-se-lhe chaga oculta…
Ao medalhão mental que o enlouquece e insulta,
Anseia retornar ao mundo a que se apega!…

Implora nova mãe de cujo amor renasça,
Toma o claustro materno entre a ira e a ameaça,
Dorme atando à memória os quadros do ódio antigo…

E agarrado à vingança e ao fel que o desconforta,
Plasma no próprio feto, em carne viva e morta,
A figura larval do seu próprio inimigo!…

Espírito Epiphanio Leite, do livro Caminhos de Volta, psicografado por Chico Xavier.

Nem todos


“E aconteceu que, quase oito dias depois destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte a orar.” — Lucas 9: 28.

Digna de notar-se a atitude do Mestre, convidando apenas Simão e os filhos de Zebedeu para presenciarem a sublime manifestação do monte, quando Moisés e outro emissário divino estariam em contacto direto com Jesus, aos olhos dos discípulos.
Por que não convocou os demais companheiros? Acaso Filipe ou André não teriam prazer na sublime revelação? Não era Tomé um companheiro indagador, ansioso por equações espirituais? No entanto, o Mestre sabia a causa de suas decisões e somente Ele poderia dosar, convenientemente, as dádivas do conhecimento superior.
O fato deve ser lembrado por quantos desejem forçar a porta do plano espiritual.
Certo, o intercâmbio com esse ou aquele núcleo de entidades do Além é possível, mas nem todos estão preparados, a um só tempo, para a recepção de responsabilidades ou benefícios.
Não se confia, imprudentemente, um aparelho de produção preciosa, cujo manejo dependa de competência prévia, ao primeiro homem que surja, tomado de bons desejos. Não se atraiçoa impunemente a ordem natural. Nem todos os aprendizes e estudiosos receberão do Além, num pronto, as grandes revelações. Cada núcleo de atividade espiritualizante deve ser presidido pelo melhor senso de harmonia, esforço e afinidade. Nesse mister, além das boas intenções é indispensável a apresentação da ficha de bons trabalhos pessoais.
E, no mundo, toda gente permanece disposta a querer isso ou aquilo, mas raríssimas criaturas se prontificam a servir e a educar-se.

Espírito Emmanuel, do livro Caminho, Verdade e Vida, psicografado por Chico Xavier, em 1948.

17 agosto 2022

Perdoados, mas não limpos


Em nossas faltas, na maioria das vezes, somos imediatamente perdoados, mas não limpos.
Fomos perdoados pelo fel da maledicência, mas a sombra que tencionávamos esparzir, na estrada alheia, permanece dentro de nós por agoniado constrangimento.
Fomos perdoados pela brasa da calúnia, mas o fogo que arremessamos à cabeça do próximo passa a incendiar-nos o coração.
Fomos perdoados pelo corte da ofensa, mas a perda atirada aos irmãos do caminho volta incontinenti, a lanhar-nos o próprio ser.
Fomos perdoados pela manifestação de fraqueza, mas o desastre que provocamos é dor moral que nos segue os dias.
Fomos perdoados por todos aqueles a quem ferimos, no delírio da violência mas, onde estivermos, é preciso extinguir os monstros do remorso que os nossos pensamentos articulam, desarvorados.
Chaga que abrimos na alma de alguém pode ser luz e renovação nesse mesmo alguém, mas será sempre chaga de aflição a pesar-nos na vida.
Injúria aos semelhantes é azorrague mental que nos chicoteia.
A serpente leva consigo a peçonha que veicula.
O escorpião carrega em si próprio a carga venenosa que ele mesmo segrega.
Ridicularizados, atacados, perseguidos ou dilacerados, evitemos o mal, mesmo quando o mal assuma a feição de defesa, porque todo mal que fizermos aos outros é mal a nós mesmos.
Quase sempre aqueles que passaram pelos golpes de nossa irreflexão já nos perdoaram incondicionalmente, fulgindo nos planos superiores; no entanto, pela lei de correspondência, ruminamos, por tempo indeterminado, os quadros sinistros que nós mesmos criamos.
Cada consciência vive e evolve entre os seus próprios reflexos.
É por isso que Allan Kardec afirmou, convincente, que depois da morte, até que se redima no campo individual, “para o criminoso a presença incessante das vítimas e das circunstâncias do crime é suplício cruel”.

Espírito Emmanuel, do  livro Caminho Espírita, psicografado por Chico Xavier.

Quem ama


Quem ama nada exige.
Perdoa sem traçar condições.
Sabe sacrificar-se pela felicidade alheia.
Renuncia com alegria ao que mais deseja.
Não espera reconhecimento.
Serve sem cansaço.
Apaga-se para que outros brilhem.
Silencia as aflições, ocultando as próprias lágrimas.
Retribui o mal com o bem.
É sempre o mesmo em qualquer situação.
Vive para ser útil aos semelhantes.
Agradece a cruz que leva sobre os ombros.
Fala esclarecendo e ouve compreendendo.
Crê na Verdade e procura ser justo.
Quem ama, qual o samaritano anônimo da parábola do Mestre, levanta os caídos da estrada, balsamiza-lhes as chagas, abraça-os fraternalmente e segue adiante…

Espírito Alexandre de Jesus, do livro Brilhe Vossa Luz, psicografado por Carlos A. Baccelli.

16 agosto 2022

Buscando a frente


...Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos. - Paulo. Filipenses, 3:16.

Disse Paulo: prossigo para o alvo… em se referindo às conquistas supremas do espírito.
Baseados em semelhante afirmativa, numerosos aprendizes do Evangelho pretendem justificar aventuras e inovações temerárias a que se confiam. Imaginam programas fantasiosos de trabalho ou mudanças precipitadas de orientação espiritual e endereçam-se ao apóstolo Paulo, procurando apoio evangélico para as atitudes extravagantes que assumem.
Vale, porém, reexaminar sempre como é que o amigo da gentilidade seguia para o alvo.
Paulo marchava para frente, fiel à retaguarda em tudo aquilo que a retaguarda possuía de útil e bom, grande e santo. Caminhava para diante honorificando os compromissos abraçados, adiantava-se no tempo sem perder a visão da tarefa que prometera realizar.
Não propunha realizações prematuras nem se entregava a sonhos marginais. Andava na trilha espinhosa dos deveres que traçara a si mesmo, perante o Cristo, buscando a meta sem contradições ou discrepâncias.

Se a sede de progresso te escalda o raciocínio, lembra-te realmente de Paulo e acompanha-lhe os exemplos no serviço renovador, mas avança para a vanguarda sem fugir ao sentido e à disciplina dos princípios edificantes que esposaste, no encalço da Vida Superior. Não nos será lícito esquecer que o apóstolo da gentilidade, no versículo 14 do capítulo 3 da epístola dedicada por ele aos filipenses, grafou as suas inesquecíveis palavras de entusiasmo e esperança: prossigo para o alvo; entretanto, no versículo 16 do mesmo documento evangélico não deixou de prevenir-nos, sensatamente: todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos.

Espírito Emmanuel, do livro Bênção de Paz, psicografado por Chico Xavier.