Os desencarnados na guerra
A grande dificuldade dos desencarnados, para se fazerem compreendidos no tocante às modalidades da nova existência com todos os seus pormenores, reside justamente na ausência de termos comparativos:
falta-lhes, em se manifestando nesse sentido, a lei analógica a fim de que se possa assimilar devidamente o que digam.
Para darmos a ideia do que seja a nossa vida e os detalhes da nossa habitação, muitas vezes é preciso que recorramos às imagens que a terra nos oferece, a tudo quanto o homem, em sua situação temporária, tem guardado na retina.
Nos planos adjacentes ao mundo, contudo, a vida espiritual transcorre em ambiente semelhante ao da vida terrena.
Suas construções, à base de uma substância para vós desconhecida, têm, mais ou menos, as disposições que aí se observam; todavia, nas menores coisas, há um caráter de transição, obrigando o espírito a elevar suas aspirações e seus interesses para o Alto.
Nos locais em que me encontrava temporariamente, muitos departamentos haviam que se preparavam às pressas. Decorações, ornamentos, objetos, tudo ali se achava e se confundia, dando perfeita ideia de grandes estabelecimentos hospitalares cuidadosamente organizados.
Surpreendida, vim a saber que os preparativos se destinavam aos recém-desencarnados da última guerra; e não foi ainda sem surpresa que vi chegarem os primeiros ocupantes daqueles alvos leitos, que se perdiam nas vastas enfermarias, graciosas e confortáveis, não sabendo explicar por que razão havia necessidade daquele cenário, mundano em demasia, onde nada faltava, nem mesmo os instrumentos de técnica operatória.
De instante a instante eis que chegava uma leva de macas, conduzidas por almas solícitas e devotadas.
Se muitos hospitais de sangue são preparados na Terra, nos infaustos dias de lutas fratricidas, mais ainda são as organizações congêneres nos planos da erraticidade. Nem todos, porém, que desencarnam, abrigam-se em semelhantes lugares, havendo situações especiais, privativas àquelas que elas fizeram jus.
Admirei a delicadeza com que os seres espiritualizados recebiam os seus irmãos egressos dos combates, onde centenas de vidas jovens foram ceifadas impiedosamente. Eram, assim recolhidos com a maior bondade, como se fossem feridos penetrando nos hospitais comuns da Terra.
Muitos dos que ali ingressavam, manifestavam o seu pavor à morte, rogando em altos brados que os livrassem de perecer. Solicitavam aos que o assistiam socorro e auxílio, suplicando que lhes prolongassem a vida em favor da noiva idolatrada, dos pais carinhosos e queridos, dos seres inesquecíveis que haviam ficado à mercê do abandono e do infortúnio.
Era para mim, singularmente interessante, ouvir-lhes essas rogativas, porquanto desconhecia ainda todo o poder somático sobre a inteligência recém-desencarnada
Eram todos tratados com inexcedível carinho e as suas amargas queixas obtinham réplicas afetuosas e animadoras promessas.
Alimentação e tratamento tudo se assemelhava estritamente ao que se pode verificar na face do orbe, até mesmo certas bagatelas que constituíam motivos de prazer para alguns, com o uso do tabaco ou de beberagens preferidas.
Tudo ali era confeccionado por entidades zelosas a fim de que se preparassem convenientemente para o conhecimento do que ocorria.
Paulatinamente recuperavam suas forças perdidas; e os que se mantinham num estado, que podemos classificar como o de convalescença, eram separados dos demais companheiros.
Recebiam, então, a vaga noção da verdade, observando fenômenos interessantes, operados por sua vontade sobre as matérias circunstantes, cuja maleabilidade os assombrava.
Esclarecidos mestres, frequentemente, lhes dirigiam a palavra como apóstolo da paz, em excursão nos departamentos militares.
Lembro-me de que, certa vez, quando elevado mentor espiritual exaltava os benefícios da fraternidade, um dos ouvintes interpelou-o:
—“Não se pode pregar a paz em tempo de guerra!”
—“Que é a vida, meu filho, senão amor? E poderá haver amor sem paz? – replicou-lhe docemente o apóstolo”. “Foi a maldade dos homens que engendrou a guerra, dizimadora dos ideais e das existências. As fúrias da impiedade varrem quase todas as extensões da Terra e os corações se dilaceram ao sopro frio da adversidade!… Poderia Deus, em sua misericórdia, sancionar esses crimes nefandos? Para sua infinita bondade não existem franceses ou alemães: há filhos bem-amados da sua sabedoria e do seu amor”.
Houve, porém, na grande assembleia, que ouvia aquela voz estranha, um surdo clamor de protesto.
“Serenai o vosso ânimo!” – objetou-lhes calmamente. “Em vão levantais o vosso clamor de protesto… Ouvi-me. Tendes vos preparado convenientemente para saber a verdade. Já não podeis integrar as fileiras de combatentes que fornecem mão forte à nefasta política da incompreensão das leis divinas. Para a Terra, em cuja face presumis continuar, sois mortos anônimos, sois o soldado desconhecido. Aprouve à magnanimidade da Providência que aqui fôsseis acolhidos suavemente, sem abalos prejudiciais.
Vossos corpos estão muito distantes, no regaço da Terra benfazeja, estraçalhados por forças cegas e assassinas.
Ingressastes em outra vida. Compete-vos, portanto, esquecer os vossos dias, aniquilados pelo ódio execrando!
Considerai a lei de amor que deve unir todas as almas como laço eterno e sacrossanto!”
Então, como se estivesse em ação um misterioso poder, a atmosfera transmutou-se, afigurando-me ter-se rasgado grande nuvem.
Uma paisagem maravilhosa desenhou-se na imensidade; muitas mães estendiam seus braços amorosos aos filhos sempre lembrados; muitos seres caros, chorando de emoção e alegria, vinham ao encontro daqueles corações tomados de espanto e de receio.
Uma estrada florida desdobrou-se sobre as nossas cabeças e um hino vibrante se ouviu nas vibrações do éter. Era a glorificação de ventura do espírito imortal, onde haviam sonoridades indescritíveis.
“Oh, Senhor do Universo, vós, que criaste todas as coisas, concedeste-lhes a beleza da imortalidade.
Sede bendito por todos os séculos dos séculos, pela dor que nos redimiu e nos lavou todas as culpas, pelas lutas onde adquirimos experiência e denodo moral, pelo vosso amor intraduzível que nos legou todas as felicidades imorredouras!
Como é grande, Senhor, o júbilo do nosso último dia na Terra, se só em vós buscávamos amparo e consolação, repouso e fortaleza, carinho e devoção!”
Todas as vozes então se reuniram num coro inigualável e, naquele dia, presenciando o esclarecimento de algumas almas que daquela hora em diante, se tornaram em ativas colaboradoras da beneficência sideral, assisti uma das mais comovedoras homenagens prestadas à bondade do Criador.