No limiar da vida de além-túmulo

Para mim, meu caro filho, as últimas impressões da existência terrena e os primeiros dias transcorridos depois da morte foram muito amargos e dolorosos.
Quero crer que a angústia, que naquele momento avassalou a minh'alma, originou-se da profunda mágoa que me ocasionava a separação do lar e dos afetos familiares, pois, apesar de crer na imortalidade, sempre enchiam-me de pavor os aparatos da morte; e dentro do catolicismo, que eu professava fervorosamente, atemorizava-me a perspectiva de uma eterna ausência.
Lutei, enquanto me permitiram as forças físicas, contra a influência aniquiladora do meu corpo, mas foi uma luta singular a que sustentei, como sói acontecer aos corações maternos, quando periga a tranquilidade dos seus filhos. Unicamente esse amor obrigava-me ao apego à vida, porque os sofrimentos, que já havia experimentado, desprendiam-me de todo o prazer que ainda pudesse me advir das coisas terrestres.


Combati com tenacidade a moléstia que enfraquecia o meu organismo, porém chegou o dia que assinalava o término das minhas possibilidades de resistência. As derradeiras horas me foram de excruciante martírio e, depois de uma jornada repleta de dores violentas, veio a noite interminável da agonia. Reparava que o meu tempo no mundo se escoava dificilmente, almejando o seu findar como o trabalhador sedento e faminto – ávido de repouso.
O meu estado moral caracterizava-se por uma semi-inconsciência porque o tormento corporal atuava sobre as minhas ideias, que vagavam desordenadas como se fossem violentamente expulsas do meu cérebro.


Desejava orar…  Todavia, os pensamentos não conseguiam obedecer-me, dispersos pela confusão estabelecida em meu mundo interior, em virtude dos padecimentos que me percorriam os centros da atividade orgânica; e a minha vontade era semelhante a uma voz de comando, totalmente desobedecida por elementos rebeldes e indisciplinados.
Hoje sei que naqueles angustiosos momentos muitos seres se conservavam, embora intangíveis, ao meu lado, amparando-me com os seus braços tutelares e compassivos, porém não os distinguia.
Sentia-me sucumbir lentamente… A princípio, gemidos de sofrimento escapavam-se do meu peito torturado, compreendendo a ineficácia dos esforços que fazia para não morrer; mas tão rude era aquela suprema tentativa de resistência, que me abandonei, finalmente, àquelas forças poderosas e invencíveis que me subjugavam.


Amanhecia… Afigurou-se-me, então, alcançar uma trégua a tantos padecimentos. Parecia prestes a dormir, mas, sob as mesmas impressões de dor e mal-estar, envolvia-me nas influências do sono, embora sendo presa de indescritíveis pesadelos. Ouvi tudo quanto se pronunciou ao redor de meu leio e vi a ansiedade de quantos dele se abeiravam, mas todas essas impressões eu as recebia como se estivesse mergulhada em mau sonho.
Desejei falar, manifestar vontades e pensamentos; isso, porém. Era impossível. Contemplei pesarosa a imagem do Crucificado, que me puseram nas mãos enlanguescidas e quis sinceramente pensar nele, orar com unção, segundo os meus hábitos. Todavia, reconhecendo-me cheia de vida, não obstante as dores, pairavam os meus sentidos como numa esquisita atmosfera de sonho… 
Percebi todos os carinhos que dispensaram ao meu corpo e que me foram igualmente proporcionados em vida; e ouvi as lamentações de quantos deploravam a minha ausência. Ansiava por movimentar-me sem que membro algum obedecesse aos meus impulsos, e, outras vezes, fazia inauditos esforços para despertar-me, fugindo de tão singular pesadelo. Afigurava-se que me cobriam de flores e sentia a carícia dos braços dos meus filhos, enlaçando-me com amargurada ternura; e dizia-lhes, mentalmente, entre lágrimas:
—Meus filhos, eu não morri!… Aqui estou e sinto-me realmente mais forte para vos proteger e amar. Por que chorais aumentando a minha angústia?
Mas tinha a boca hirta e os braços gelados para retribuir aquelas expansões de desvelado carinho!
Apenas possuía a sensação de lágrimas ardentes, que me rolavam sobre as faces descoloridas, como a estátua viva da amargura e do silêncio.


O ataúde pareceu-me um novo leito; porém, quando me convenci de que me arrebatavam com ele, entre os angustiosos lamentos dos que ficavam, uma impressão penosa, atroz, subjugou-me integralmente. Achei-me, então, sob indefinível sentimento de medo, que me aniquilou a totalidade das fibras emotivas. Um choque de dor brusca dominou-me a alma e eu perdi a consciência de mim mesma… 
Após algum tempo, cuja duração não posso determinar, paulatinamente afigurou-se-me acordar; contudo, a princípio, achava-me envolvida no mesmo panorama de sonho. Como se a memória fosse possuída de um admirável poder retrospectivo, comecei a ver todos os quadros da minha infância e juventude, relembrando um a um os mínimos fatos da minha existência relativamente breve. Via-os, esses quadros do pretérito, com naturalidade, sem admiração e sem surpresa…


O tempo aqui não se conta pelos cronômetros terrenos, e o fenômeno do dia e da noite é diversificado, verificando-se em lugar das trevas noturnas leve diminuição de intensidades da luz solar, a qual se torna esbatida como num dos vossos lindos crepúsculos, repletos de colorações e nuances admiráveis, como se a luz interpenetrasse todas as coisas.
A vegetação é extremamente interessante e bizarra, em comparação com a da Terra.
Imaginai um craveiro florescendo com suas raízes entrelaçadas na própria atmosfera do mundo, para fazerdes uma ideia do que estou descrevendo.
Poucas flores são mais ou menos semelhantes às dos vossos jardins e a maioria delas vos pareceriam extravagantes à primeira contemplação; caracterizam-se, porém, por sua indescritível e invulgar delicadeza.


Descerrou-se, finalmente, o derradeiro véu que obumbrava o meu ser pensante… Senti-me sã, ativa, ágil, como se despertasse naquele instante… Ah! Eu morrera… 
E a morte representava um grande bem, porque eu me sentia outra, trazendo as faculdades integrais, plena de favoráveis disposições para as lutas da vida. Todavia tinha a impressão de estar só, já que ninguém respondia às minhas arguições, embora percebesse que a minha voz nada perdera de seu vigor e tonalidade.
Propositalmente procurava fazer-me vista por todos, mas uma impossibilidade perturbadora correspondia aos meus pensamentos. Refugiei-me, então, nas mais sinceras e fervorosas preces. Foi quando comecei a divisar vultos sutis e ouvir vozes acariciadoras, das quais fugia amedrontada e receosa, na ilusão pueril de que me achava com o corpo físico, trânsita de medo e suscetibilidades… 

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