Na vida da alma livre

Num ambiente de paz e serenidade transcorreram os meus primeiros dias no Além-túmulo.
Não obstante a minha tranquilidade, impressionavam-me, ainda, as sensações corporais, em razão das profundas raízes de sentimentos que me ligavam ao orbe terráqueo. Bastaria que me colocasse em contato com as recordações da vida que deixara, para que revivessem, em meu mundo interior, incidentes que presumia inumados para sempre no olvido, junto às mais acerbas lembranças.
Avivaram-se, então, as próprias dores físicas que eu experimentara nos meus últimos tempos na Terra; e sentia-me alquebrada pela dor e pelos desgostos.


São essas manifestações de vontade fraca e indecisa que mais torturaram os trespassados, no início de sua existência extraterrestre.
Na vida livre, o pensamento é quase tudo. Não há nela formas determinadas como no mundo da matéria; e tudo se subordina aos ditames de uma vontade potente.


Meus parcos conhecimentos a respeito do espírito e de suas possibilidades dificultavam-me a concentração do poder mental num objetivo definido, o que auxilia sobremaneira os seres recém-libertos da carne a compreenderem a vida que os rodeia.


Francelina – o espírito boníssimo que me servira de mãe – obtivera permissão para acompanhar-me na iniciação da existência espiritual e foi guiada por sua meiguice que ingressei nas regiões misteriosas, que a morte nos descerra em outros planos.


Para que possas ter ideia do local em que me encontrava, direi que era igual ao dos majestosos edifícios daí, divididos em confortáveis apartamentos. Era, como se pode dizer, uma grande casa de socorros espirituais, um ninho acolhedor de almas errantes e enfraquecidas.
Havia ali solicitude, zelo e amor fraternais. Muita coisa existe que não se parece com os objetos da Terra, porém, lá vive algo que pode servir de formas intermediárias entre um e outro plano.


Num espaçoso recinto, cujo teto era a abóbada estrelada do infinito, nos reuníamos para orar.
Era aí que, em sagrado recolhimento, ouvíamos, extasiados, as mais sublimes lições dos mestres, os elevados espíritos que nos visitavam e que, como guias consoladores, orientavam o nosso pensamento para concepções grandiosas do universo, confortando-nos em nossa fraqueza e ensinando-nos a vida excelsa da verdade.
Muitas vezes, nos instantes em que nos entregávamos às mais fervorosas orações, víamos descer, das vastidões etéreas que nos cobriam a cabeça, uma profusão de pétalas de flores, que desapareciam quando aspirávamos os seus perfumes balsâmicos.
Explicou-me certo espírito evoluído que esses eflúvios aromáticos eram as manifestações do benefício da prece, que elevávamos aos páramos da perfeição e que, a eles remontando, voltava aos nossos corações saturados do amor das almas benditas que, por seu saber e suas virtudes, se tornavam colaboradoras diretas da onipotência divina.


Em outras ocasiões, afigurava-se ouvir músicas estranhas e de ritmos desconhecidos, que nos embalavam na sua harmoniosa carícia. Às vezes, parecia-me deslocada na sua vibração, acompanhado-a no seu interminável caminho, vendo então, no céu, um coração dourado e resplandecente de luz, cujas pulsações enchiam de melodias todo o universo, como um símbolo radioso e sagrado.


Salmos!… Hosanas!… 
Hinos de felicidade intraduzível, escutávamos, comovidos, transportados de esperança e de inenarráveis alegrias.
Muitos dos sábios mentores que nos acompanhavam, aproveitavam-se desses ensejos para materializarem os seus nobilíssimos pensamentos, transmitindo-nos mensagens que por instantes ficavam maravilhosamente grafadas na eterizada tela do Infinito e eram generosos apelos ou profundas exortações, que calavam no mais íntimo dos nossos espíritos.


Foi-me dito, depois, que tais ocasiões propiciavam esses fenômenos singularmente belos, porquanto se aproveitava a vibração síntese de todos os nossos pensamentos reunidos em prece, como grande coeficiente de força plasmadora.
Espetáculos indescritíveis, contemplados na vida errática, e as mais proveitosas lições ali eram colhidas; desse meio é que muitas almas regressam ao mundo terreno, ricas de conhecimentos, para acender os archotes guiadores da humanidade.
Nesse lugar a educação intelectual e o aprimoramento das possibilidades sensíveis são o principal escopo de todas as atividades da criatura.
Assim como tendes os vossos livros, que representam o repositório de vossa cultura, há também uma substância, que retém os grandes pensamentos das almas nobres. Nenhuma lição fica, pois perdida e todos os espíritos procuram assimilar a essência desses profundos ensinamentos.


Esse ambiente constitui uma grande esfera fluídica, onde todas as nossas impressões tomam corpo de realidade.
Lá existe, ainda, a nutrição, contudo, o espírito geralmente absorve os elementos, que regeneram sua vitalidade, no próprio oxigênio que respira, em inimagináveis condições de pureza e nas mais delicadas composições químicas da atmosfera.
Alguns seres, aí aportando, necessitam, por força dos arraigados hábitos, de alimentos análogos aos da Terra, o que obtém por algum tempo, mas apenas na aparência de realidade, ilusão esta que é consentânea com as superficialidades do corpo somático, até que se acostumem com as novas modalidades de sua existência.


Altamente instrutivas são as conversações e assembleias dos espíritos. Personalidades eminentes aí se encontram elaborando projetos grandiosos para as suas atividades porvindouras. Não há lacunas para as futilidades de que a vida terrena está farta. Tudo ali é a súmula de aspirações edificantes, o que é, aliás, natural, porque estando indene da fadiga que lhe advém da luta pelo pão diário, pode a alma entregar-se às mais santificadas expansões.


Influxos abençoados, inspirações salvadoras daí promanam para a humanidade; mensagens enviadas pelas almas que, sob qualquer bandeira, viveram como condutores diretos ou indiretos das coletividades.
A vida, pois, aí decorre como se fosse numa abençoada estação de repouso, onde se descansa de muitas lides e se aprendem as mais proveitosas lições para o progresso nas lutas futuras. 


O tempo aqui não se conta pelos cronômetros terrenos, e o fenômeno do dia e da noite é diversificado, verificando-se em lugar das trevas noturnas leve diminuição de intensidades da luz solar, a qual se torna esbatida como num dos vossos lindos crepúsculos, repletos de colorações e nuances admiráveis, como se a luz interpenetrasse todas as coisas.
A vegetação é extremamente interessante e bizarra, em comparação com a da Terra.
Imaginai um craveiro florescendo com suas raízes entrelaçadas na própria atmosfera do mundo, para fazerdes uma ideia do que estou descrevendo.
Poucas flores são mais ou menos semelhantes às dos vossos jardins e a maioria delas vos pareceriam extravagantes à primeira contemplação; caracterizam-se, porém, por sua indescritível e invulgar delicadeza.


Alguns espíritos me disseram que as almas sumamente perfeitas e que já se tornaram em executores dos decretos do Altíssimo, auxiliam os seres rudimentares do reino mineral e vegetal, ajudando-os na organização de suas formas, dos seus pensamentos formosos e sábios, que elas saturam de elementos de astralidade, favorecendo assim o embrião espiritual em suas manifestações iniciais.

 
Como poderia descrever a serenidade e a paz que se desfruta num ambiente feliz da erraticidade? Não há vocábulos ou arroubos de imaginação para fazê-lo com fidelidade.
Foi aí que encontrei afetos acrisolados e reconheci as amizades que desafiam o tempo e a morte, nesses locais onde existem ainda os reflexos da vida planetária e onde o espírito adquire novas forças para a luta interminável no progresso universal.


Como poderia descrever a serenidade e a paz que se desfruta num ambiente feliz de erraticidade? Não há vocábulos ou arroubos de imaginação para fazê-lo com fidelidade.
Foi aí que encontrei afetos acrisolados e reconheci as amizades que desafiam o tempo e a morte, nesses locais onde existem ainda os reflexos da vida planetária e onde o espírito adquire novas forças para a luta interminável no progresso universal.


Após adaptar-me mais ou menos a essa nova vida, ocorreu-me como vos poderia rever e solicitei de um instrutor informação a respeito.
—Sabes em que direção está a Terra? – perguntou ele com bondade.
Diante da minha natural ignorância, apontou-me com a destra um ponto obscuro que se perdia na imensidade, recomendando fitá-lo atentamente. Afigurou-se-me vê-lo crescer dentro de um turbilhão de sirocos indescritíveis. Parecia-me contemplar a impetuosidade de um furacão a envolver grande massa compacta de cinzas enegrecidas. 
Tomada de inusitado receio, desviei o olhar; porém, o meu solícito guia, exclamou com brandura:
—Lá está a Terra com os seus contrastes destruidores; os ventos da iniquidade varem-na de polo a polo, entre os brados angustiosos dos seres que se debatem na aflição e no morticínio. O que viste é o efeito das vibrações antagônicas, emitidas pela humanidade atormentada nas calamidades da guerra. Lá alimentam-se as almas com a substância amargosa das dores e sobre a sua superfície a vida é o direito do mais forte.
Triste existência a dessas criaturas que se trucidam mutuamente para viver.
São comuns, ali, as chacinas, a fome, a epidemia, a viuvez, a orfandade que aqui não conhecemos…  Obscuro planeta de exílio e de sombra! Entretanto, no universo, poucos lugares abrigarão tanto orgulho e tanto egoísmo! Por tal motivo é que esse mundo necessita de golpes violentos e rudes.
Busca ver naquelas regiões ensanguentadas o local em que estiveste.
Pensa nos que lá deixaste, cheio de amargurosa saudade! Deus permite e eu te auxilio.


Delineei, então, na mente, tudo quanto se relacionava com a minha derradeira existência. Primeiramente, vi-me à margem de uma encantadora paisagem marítima avistando um caminho longo, através do qual fui impelida a seguir.
Sentia-me na posse das faculdades volitivas, que obtivera com o meu desprendimento da vida carnal, e, numa fração infinitésima de tempo, estava ao vosso lado.
Ah! Como vos abracei a todos, emocionada e recolhida! Como achei pequenino o nosso antigo lar e como me penalizou o quadro das vossas dores e dificuldades!
Chorei amargamente vendo a miséria do mundo que vos compele ao sofrimento e a uma batalha sem tréguas!… 
Então misturei, com a prece dos encarnados, sofredores e aflitos, a oração de minha alma amedrontada, rogando ao Pai Celestial que vos fortificasse na luta redentora, onde, ao lado dos inúmeros prantos e das alegrias mascaradas, esvoaça o bando das mil tentações que assediam os espíritos no ambiente obscuro da vida carnal, obrigando-os ao esquecimento de seus deveres e de suas austeras obrigações morais.

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