Hermes Fontes


Quem só tem alma para oferecer
No mundo, é um coração ermo e faminto… 
A incompreensão é amarga como absinto,
Roubando a vida, envenenando o ser.

Todo o mal do idealismo é conhecer
As forças antagônicas do instinto
No coração – Vesúvio nunca extinto –
Insaciado no amor e no prazer.

Todos aqueles que me conheceram
Na senda da ilusão e fantasias,
Chorem comigo pelo que sou!

Sou a sombra dos sonhos que morreram,
Contemplando nas ruínas mais sombrias
O meu castelo que se espedaçou.


Não me bastou, Senhor, velar atento
A misteriosa luz com que, à procura
De um luminoso céu em miniatura,
Vivi sonhando em meu deslumbramento!

Dentro do meu ideal supus que, isento
De toda a dor, de toda a mágoa obscura
Alcançasse o castelo da ventura
Na glorificação do pensamento.

Mas, ai de mim! Meu barco pequenino
Perdeu-se em meio à torva tempestade
Sem divisar a luz de qualquer porto;

E as minhas esperanças de menino
E os anelos de amor e mocidade
Naufragaram no grande desconforto.


Em minha juventude estive à espera.
De um malogrado sonho superior,
– Esperança divina – que eu quisera
ver aureolada por um grande amor!

Mas não pude esperar quanto devera
Nos carreiros aspérrimos da dor,
Sem fé, que era os meus olhos a quimera
Do pensamento mistificador.

Meu erro foi descrer porque, deserto
O coração, somente acreditei
Na morte, o grande abismo – o nada incerto.

Oh! O maior dos enganos perpetrados!
Pois no meu sonho altíssimo de rei,
Achei a dor dos grandes condenados! 

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