Em fraternal saudação a Humberto de Campos
Começa assim, no volume de suas “Memórias” (1), o capítulo 32, intitulado: “Um amigo de infância”:
No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser arvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas úmidas e avermelhadas, as quais eram como duas joias flexíveis que tentassem fugir no seu cofre.
Mamãe, olhe o que eu achei! Grito, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.
Planta, meu filho… Vai plantar… Planta-a no fundo do quintal, longe da cerca… Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva.
A trinta ou quarenta metros da casa, estaco, Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolos e telhas. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, no lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e mobil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.
(1) Livraria Editora “José Olympio”, 6ª Edição.
Pois bem, esse recanto do terreno da casa em que ele, na quadra infantil, residiu longos anos, nessa Parnaíba tão decantada em seus escritos e, particularmente, no volume que vimos de citar, foi, após a sua desencarnação, transformado num jardim publico, a que deram a denominação de Parque “Humberto de Campos”.
Ocioso dizer que o que inspirou a transformação daquele fundo de quintal em parque, com o nome do humorista notável e talentoso cronista nascido no Maranhão, foi a circunstância de ostentar-se ali o belo e frondoso cajueiro por ele plantado, quando ainda na primeira infância, e ao qual consagrou em suas “Memórias” nada menos de sete páginas, donde se evola forte o perfume da saudade e das recordações doces, que tantas emoções despertam nas almas sensíveis, mormente em dias de sofrimento e amargor, se já começaram a descer sobre a criatura as sombras merencórias do ocaso da existência.
Nem só, entretanto, no mencionado capítulo das suas “Memórias” fala Humberto da hoje pujante árvore que as suas mãos de criança viva e travessa plantaram um dia, em semente, lá perto da cerca do amplo terreiro em que ele multiplicava despreocupado os brincos da meninice, na sua inolvidável Parnaíba.
Além de varias outras referencias ao cajueiro querido, na extensa obra literária que deixou como escritor humano, ainda agora, como escritor do mundo invisível, na penúltima das mensagens que este volume contém "Carta à minha Mãe" alude à arvore amada, nestes termos tocantes, como o são, aliás, todos os dessa comovente pagina que o seu Espírito traçou, da outra margem da vida, acionando o lápis de Francisco Cândido Xavier:
Ao Mirocles, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de seiva, na carne moça da terra…
Exprime ele assim, sem dúvida, quão grata foi, ao seu coração amorável, a ideia de realçarem a beleza do seu "irmão" frondoso, pondo-o em destaque na moldura de um parque singelo, mas donairoso, onde, "como um símbolo plantado no coração da terra parnaibana", segundo as suas mesmas expressões em "Carta a minha Mãe", aquele, como que orgulhoso do irmão que ali o deixou, se ergue cheio de majestade, a perpetuar, "para as almas boas", a lembrança de quem, "arrebatado no turbilhão da dor e da morte", vive agora feliz. Feliz, sim, porque liberto da prisão da carne, e feliz também, porque preso pelos grilhões do afeto transbordante de uma alma de escol, a da veneranda velhinha que aguarda, paciente e resignada, depois de muito sofrer, também lhe soe a hora da libertação, para juntar-se de novo ao filho idolatrado, nos páramos da verdadeira vida.
Assim sendo, gratíssimo igualmente nos é a nós associar-nos à homenagem que a bem inspirada e piedosa iniciativa da criação do Parque "Humberto de Campos" envolve, sem, contudo, a restringirmos ao homem que, pelo fulgor da sua inteligência se impôs à admiração e à estima dos seus contemporâneos e dos pósteros, tanto quanto pela soma de seus dotes morais. Antes, rendemo-la, de preferência, as seu Espírito, pela magnitude do esforço e pela caridosa solicitude com que procura, desde que se romperam os véus que lhe impediam a visão da verdade espiritual, demonstrar, aos homens incrédulos, não só a realidade positiva da sobrevivência da alma, como a da sua existência no Além, qual a revelou e continua a patentear o Espiritismo, esse Espiritismo que na terra pouco lhe atraiu a atenção.
E é tomados de emoção viva e de legitimo encantamento, ante a grandiosidade desse esforço a que ele se lançou com prodigioso devotamento e que lhe conservará, pelos tempos em fora, o nome e os feitos, mais do que todas as obras que haja produzido e pudesse produzir como homem, como Espírito encarnado, por muito geniais fossem elas, que nos juntamos aos que lhe exalçaram, para os dias atuais, o nome e a lembrança, fundando o parque onde frondeja, opulento da seiva que lhe fornece "a carne moça da terra" o seu inesquecível cajueiro.
Fizemo-lo da maneira que se nos apresenta objetivamente possível neste instante em que, reunidas em volume, entregamos à deleitação dos estudiosos e aos amantes das belas letras as suas Crônicas de Além-túmulo: reproduzindo aqui, como um símbolo, conforme ele próprio o qualificou, símbolo certamente de grandeza e elevação espiritual, pois que instituído "para as almas boas", a imagem da arvore imponente, numa fotografia do parque onde ela altaneira se levanta, fotografia essa que a sua carinhosa progenitora ofertou a um excelente companheiro nosso, quando, em janeiro do ano corrente, a viajar por todo o Norte, logrou visita-la, graças a gentileza de um amigo comum.
Deparando-se-lhe no visitante um admirador entusiasta do seu saudoso Humberto, em cujo Espírito conta ele bondoso amigo invisível, a respeitável anciã não se contentou com o lhe presentear a reprodução fotográfica de uma solenidade que lhe há de ter feito derramar não poucas lágrimas de comoção e saudade: escreveu-lhe nas costas uma dedicatória bastante eloquente na sua simplicidade.
Esta circunstância torna para nós a sua transcrição aqui mais que um dever – um ato de culto reverente a esse duplo amor, materno-filial, que de longe nos evos traz enlaçadas duas almas lidimamente irmãs e fundidas, por ele e para sempre, no amor infinito de Deus. Diz assim a dedicatória:
Ao Sr. José Maria Macedo Santos ofereço, como lembrança da honrosa visita que me fez, a fotografia do Parque “Humberto de Campos”, no dia de sua inauguração. Com sincera gratidão da humilde criada – Anna C. Veras. – Parnaíba, 10 de janeiro de 1937.
Excelsior! Dizemos, ao encerrar estas linhas pobres de uma homenagem que só não é desprezível porque feita de coração aberto, dizendo-o em saudação fraternal e à maneira de sincero reconhecimento ao Espírito amigo que foi entre nós – HUMBERTO DE CAMPOS.
No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser arvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas úmidas e avermelhadas, as quais eram como duas joias flexíveis que tentassem fugir no seu cofre.
Mamãe, olhe o que eu achei! Grito, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.
Planta, meu filho… Vai plantar… Planta-a no fundo do quintal, longe da cerca… Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva.
A trinta ou quarenta metros da casa, estaco, Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolos e telhas. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, no lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e mobil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.
(1) Livraria Editora “José Olympio”, 6ª Edição.
Pois bem, esse recanto do terreno da casa em que ele, na quadra infantil, residiu longos anos, nessa Parnaíba tão decantada em seus escritos e, particularmente, no volume que vimos de citar, foi, após a sua desencarnação, transformado num jardim publico, a que deram a denominação de Parque “Humberto de Campos”.
Ocioso dizer que o que inspirou a transformação daquele fundo de quintal em parque, com o nome do humorista notável e talentoso cronista nascido no Maranhão, foi a circunstância de ostentar-se ali o belo e frondoso cajueiro por ele plantado, quando ainda na primeira infância, e ao qual consagrou em suas “Memórias” nada menos de sete páginas, donde se evola forte o perfume da saudade e das recordações doces, que tantas emoções despertam nas almas sensíveis, mormente em dias de sofrimento e amargor, se já começaram a descer sobre a criatura as sombras merencórias do ocaso da existência.
Nem só, entretanto, no mencionado capítulo das suas “Memórias” fala Humberto da hoje pujante árvore que as suas mãos de criança viva e travessa plantaram um dia, em semente, lá perto da cerca do amplo terreiro em que ele multiplicava despreocupado os brincos da meninice, na sua inolvidável Parnaíba.
Além de varias outras referencias ao cajueiro querido, na extensa obra literária que deixou como escritor humano, ainda agora, como escritor do mundo invisível, na penúltima das mensagens que este volume contém "Carta à minha Mãe" alude à arvore amada, nestes termos tocantes, como o são, aliás, todos os dessa comovente pagina que o seu Espírito traçou, da outra margem da vida, acionando o lápis de Francisco Cândido Xavier:
Ao Mirocles, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de seiva, na carne moça da terra…
Exprime ele assim, sem dúvida, quão grata foi, ao seu coração amorável, a ideia de realçarem a beleza do seu "irmão" frondoso, pondo-o em destaque na moldura de um parque singelo, mas donairoso, onde, "como um símbolo plantado no coração da terra parnaibana", segundo as suas mesmas expressões em "Carta a minha Mãe", aquele, como que orgulhoso do irmão que ali o deixou, se ergue cheio de majestade, a perpetuar, "para as almas boas", a lembrança de quem, "arrebatado no turbilhão da dor e da morte", vive agora feliz. Feliz, sim, porque liberto da prisão da carne, e feliz também, porque preso pelos grilhões do afeto transbordante de uma alma de escol, a da veneranda velhinha que aguarda, paciente e resignada, depois de muito sofrer, também lhe soe a hora da libertação, para juntar-se de novo ao filho idolatrado, nos páramos da verdadeira vida.
Assim sendo, gratíssimo igualmente nos é a nós associar-nos à homenagem que a bem inspirada e piedosa iniciativa da criação do Parque "Humberto de Campos" envolve, sem, contudo, a restringirmos ao homem que, pelo fulgor da sua inteligência se impôs à admiração e à estima dos seus contemporâneos e dos pósteros, tanto quanto pela soma de seus dotes morais. Antes, rendemo-la, de preferência, as seu Espírito, pela magnitude do esforço e pela caridosa solicitude com que procura, desde que se romperam os véus que lhe impediam a visão da verdade espiritual, demonstrar, aos homens incrédulos, não só a realidade positiva da sobrevivência da alma, como a da sua existência no Além, qual a revelou e continua a patentear o Espiritismo, esse Espiritismo que na terra pouco lhe atraiu a atenção.
E é tomados de emoção viva e de legitimo encantamento, ante a grandiosidade desse esforço a que ele se lançou com prodigioso devotamento e que lhe conservará, pelos tempos em fora, o nome e os feitos, mais do que todas as obras que haja produzido e pudesse produzir como homem, como Espírito encarnado, por muito geniais fossem elas, que nos juntamos aos que lhe exalçaram, para os dias atuais, o nome e a lembrança, fundando o parque onde frondeja, opulento da seiva que lhe fornece "a carne moça da terra" o seu inesquecível cajueiro.
Fizemo-lo da maneira que se nos apresenta objetivamente possível neste instante em que, reunidas em volume, entregamos à deleitação dos estudiosos e aos amantes das belas letras as suas Crônicas de Além-túmulo: reproduzindo aqui, como um símbolo, conforme ele próprio o qualificou, símbolo certamente de grandeza e elevação espiritual, pois que instituído "para as almas boas", a imagem da arvore imponente, numa fotografia do parque onde ela altaneira se levanta, fotografia essa que a sua carinhosa progenitora ofertou a um excelente companheiro nosso, quando, em janeiro do ano corrente, a viajar por todo o Norte, logrou visita-la, graças a gentileza de um amigo comum.
Deparando-se-lhe no visitante um admirador entusiasta do seu saudoso Humberto, em cujo Espírito conta ele bondoso amigo invisível, a respeitável anciã não se contentou com o lhe presentear a reprodução fotográfica de uma solenidade que lhe há de ter feito derramar não poucas lágrimas de comoção e saudade: escreveu-lhe nas costas uma dedicatória bastante eloquente na sua simplicidade.
Esta circunstância torna para nós a sua transcrição aqui mais que um dever – um ato de culto reverente a esse duplo amor, materno-filial, que de longe nos evos traz enlaçadas duas almas lidimamente irmãs e fundidas, por ele e para sempre, no amor infinito de Deus. Diz assim a dedicatória:
Ao Sr. José Maria Macedo Santos ofereço, como lembrança da honrosa visita que me fez, a fotografia do Parque “Humberto de Campos”, no dia de sua inauguração. Com sincera gratidão da humilde criada – Anna C. Veras. – Parnaíba, 10 de janeiro de 1937.
Excelsior! Dizemos, ao encerrar estas linhas pobres de uma homenagem que só não é desprezível porque feita de coração aberto, dizendo-o em saudação fraternal e à maneira de sincero reconhecimento ao Espírito amigo que foi entre nós – HUMBERTO DE CAMPOS.
