Cruz e Souza
As desditosas almas desterradas
Choram de angústia no caminho estreito
Onde o homem, misérrimo e imperfeito,
Palmilha escabrosíssimas estradas…
E recordam radiosas alvoradas,
Deslumbramentos no infinito Eleito,
Onde a luz da justiça e do direito
É a alma das leis, na Terra, desprezadas!
Ó vós que andais idealizando o brilho
Da luz celeste sobre o vosso exílio,
Que é um deserto de sombra merencória!
Para que esplenda a luz da nova era,
Lutai! Porque a ventura vos espera
Na eternidade lúcida da glória!
Longe do sentimento limitado
Da matéria em seus átomos finitos,
No limite de um mundo ignorado,
Celebra a Morte seus estranhos ritos.
Hinos e vozes, lágrimas e gritos
Do Espírito, que outrora encarcerado
Contempla a luz dos orbes infinitos
Bendizendo a amargura do passado!
Ó morte, a tua espada luminosa,
Formada de uma luz maravilhosa
É invencível em todas as pelejas!…
És no universo estranha divindade;
Ó operária divina da verdade,
Bendita sejas tu! Bendita sejas!…
Há uma radiosa e eterna alma divina,
Que se irradia sobre a imensidade,
Alma da luz puríssima que invade
A cósmica amplidão que se ilumina.
Alma cheia de terna claridade,
Que alegrias dulcíssimas propina,
Espírito do bem que aclara e ensina
O caminho da vida e da verdade.
Alma das almas, cujo pensamento
É a vibração do eterno movimento
Sem princípio e sem dia derradeiro…
Deus! – alma do amor que a tudo abraça,
Que é ciência, harmonia, aroma e graça,
Alma das almas do universo inteiro.
Do pensamento nas douradas flamas
Busco a luz dos espaços constelados
Extasiando-me ante os panoramas
De divinas belezas recamados.
Num mar de cor de ilimitadas gamas
Perpassam mundos quintessenciados,
Lúcidas pérolas a pender das ramas
Da árvore azul dos páramos sagrados.
E nesse ambiente de sublimidades,
Vibram de vida outras humanidades,
Mais luz buscando na amplidão dos céus.
São as almas ditosas, superiores,
Que derramam nos seres inferiores
Os eflúvios do excelso amor de Deus.
Ó vós que andais à espera da Ventura,
O coração cruciado de amargores,
Aluviões de peitos sofredores
Sobre a Terra, na estrada negra e dura
Tolerai vosso dia de tortura,
Pois nos cadinhos purificadores
Dos caminhos das penas e das dores,
A fé de todo o espírito se apura!…
Chorai na vossa senda de esperança,
Na ânsia de amor, de paz e de bonança,
Entre os sonhos das noites dolorosas.
Chorai que as vossas lágrimas divinas
São clarões de alvoradas peregrinas,
Estrelando as estradas tenebrosas.
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