Casimiro Cunha


Quanto é amargo e penoso ver tateando
O pobre cego sobre a senda escura!…
Quanto mais vive, mais a desventura
Escurece-lhe o dia miserando…

Mas há, na Terra, noite ainda mais densa,
Cheia de escuridão e iniquidade
Dos que se vão, sem luz e sem piedade,
Afundar-se no abismo da descrença.

Cegos de Deus, felizes vós vos credes,
Pois que as luzes celestes já antevedes,
Pelo poder da fé que ampara e adoça.

Vivei tranquilos nessa noite imensa,
Porque no mundo a treva da descrença
É uma estrada mais negra do que a vossa!…


Sobre as lutas da Terra, o Mestre se debruça
E exclama, olhos no céu, amargurado e aflito:
— “Há milênios, meu Pai, que choro no infinito,
Presa aos braços da cruz, minh’alma que soluça…”

Depois, fitando a Terra, eis que o Mestre inda exclama:
— “Amai-vos, meus irmãos! Somente o amor ensina
A encontrar a verdade e a luz pura e divina;
Em verdade, é feliz somente aquele que ama!…”

Em vão, porém, Jesus grita ao mundo a verdade,
No mar da indiferença, a cega humanidade
Não procura a verdade e nem deseja a luz.

Caim devora Abel no caminho escabroso!
Sempre a sede carnal de prazer e de gozo,
E o Mestre continua, em lágrimas, na cruz… 


Dos martírios da cruz, das suas dores,
O Senhor da Verdade, há dois mil anos,
Derrama a luz nos corações humanos
E lhes clareia a senda de amargores.

É da cruz, dos seus dúlcidos arcanos,
Que Ele ampara e consola os pecadores,
Aluviões de seres sofredores,
Nas estradas de espinhos e de enganos.

— Perdoa-lhes, meu Pai! – ainda se escuta
No deserto de pedra áspera e bruta
Do calvário – a coroa dos seus atos!
Mas no mundo de carne e sombras mudas,
Vê-se o interesse triste de outros Judas,
E os preconceitos frios dos Pilatos. 


Sobre a Terra de sombra e de amargura,
A treva espessa e triste se fizera… 
A ciência e a fé, nas asas da quimera,
Mais se afundavam pela noite escura.

A alma humana de então se desespera.
É eis que das luzes místicas da altura
Desce outra luz, confortadora e pura
De que o mundo infeliz se achava à espera;

E Kardec recebe-a sobre o abismo,
Espalhando as lições do Espiritismo,
Em claridades de consolação.

Emissário da luz e da verdade,
Entrega ao coração da humanidade
A doutrina de amor e redenção.
    "Em Homenagem a Allan Kardec".


Não elimine a esperança
De uma alma triste ou ferida
Que a esperança é a luz eterna
Nas grandes noites da vida.

Feliz daquele que espera,
No caminho da amargura,
Pois toda a dor vem e passa
No coração da criatura.

Ama e crê. Espalha o bem.
Porque, na Terra, em verdade,
É infeliz quem cuida apenas
Da própria felicidade.

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