Belmiro Braga

Nasceu em 7 de janeiro de 1870, em Juiz de Fora, Minas Gerais, e aí desencarnou em 1937. Iniciou-se na vida comercial e foi, depois, notário público. Poeta, comediógrafo e jornalista nato. Popularizou-se, sobretudo, pela singeleza e espontaneidade da sua musa. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras, da qual foi um dos fundadores. Chamavam-lhe – “Rouxinol Mineiro”.



Cheguei feliz ao meu porto,
Estou mais moço e mais forte,
Encontrei paz e conforto
Na vida, depois da morte.
Eis as rimas de outro norte,
Que escreve o poeta morto.


Com a ignorância proterva,
Que a morte é o fim, o homem pensa,
Julgando no talo de erva
A paisagem linda e imensa.
Ah! feliz o que conserva
As luzes doces da crença.


Quanta gente corre, corre,
Ansiosa atrás do prazer,
Sonha e chora, luta e morre
Sem jamais o conhecer.
Não há ninguém que se forre,
Sobre a Terra, ao padecer.


Fecha a bolsa da ambição,
Não corras atrás da sorte,
Venera a mão que te exorte
Nos dias de provação.
Tem coragem, meu irmão,
Ninguém se acaba com a morte.


No mundo vale quem tem
Um cifrão de prata ou de ouro;
Mas, da morte ao sorvedouro,
Jamais escapa ninguém!
No Céu só vale o tesouro
Daquele que fez o bem.


Que tua alma em preces arda
No fogo da devoção.
Deus é Pai que nunca tarda
No caminho da aflição.
Nas mágoas do mundo, guarda
A fé do teu coração.


Entre a fé e o fanatismo,
Muito espírito se engana:
A primeira ampara e irmana,
O segundo é o dogmatismo,
Goela aberta de um abismo
Na estrada da vida humana.


A Terra, para quem sente,
Inda é torre de Babel,
Onde a prática desmente
As ilusões do papel:
Muita boca sorridente,
Corações de lodo e fel.


Suporta a dor que te cobre
Na estrada espinhosa e má,
Quem é rico, quem é nobre,
A essa estrada voltará.
É uma ventura ser pobre,
Com a bênção que Deus nos dá.


Na vida sempre supus,
Sem muita filosofia,
Que, em prol do Reino da Luz,
Basta, na Terra sombria,
Que o homem siga a Jesus,
Que a mulher siga a Maria.


Se tens o leve agasalho
Do santo calor da crença,
Exemplifica o trabalho
Sem cuidar da recompensa.

Não peças aprovação
Do mundo pobre e enganado,
Recorda que o mundo vão
É grande necessitado.

Vais procurar a ventura?
Toma cuidado: os caminhos
São crivados de amargura,
Atapetados de espinhos.

Acalma-te na aflição,
Modera-te na alegria,
Não prendas o coração
Nos laços da fantasia.

No curso de aquisições,
Não vivas correndo a esmo;
Esquece as inquietações,
Toma posse de ti mesmo.

Recorda que tua vida
É sempre uma grande escola;
Muita fronte encanecida
É fronte de criançola.

Não perguntes ao passado
Pela sombra, pela dor,
O caminho é ilimitado,
Eterna a fonte do amor.

Olha o monte luminoso,
Que símbolo sacrossanto!… 
Quem desce é riso enganoso,
Quem sobe é suor e pranto.

Não te aflijas. A bonança
É flor de sabedoria,
Não te esqueças que a esperança
É a bênção de cada dia.

No impulso que te conduz,
Age sempre com bondade,
Todo esforço com Jesus
É vida na eternidade.



Ai de quem busca o deserto
De torturas da descrença:
Morrer é sentir de perto
A vida profunda e imensa.


Depois da miséria humana
Sobre a Terra transitória,
Lastimo quanto se engana
O ouro da falsa glória.


Dinheiro do mundo vão,
Mentiras da vaidade,
Não trazem ao coração
A luz da felicidade.


Bem pobre é a cabeça tonta
Dos perversos e usurários,
Que morrem fazendo conta
Nas cruzes de seus rosários.


É ditosa no caminho,
Alegre como ninguém,
A mão terna do carinho
Que vive espalhando o bem.


Angústias, derrotas, danos,
Tudo isso tenho visto.
Só não vejo desenganos
Na estrada de Jesus-Cristo.

Belmiro Braga (Espírito)

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