Augusto Lima


No suave mistério dos espaços,
“Santa Maria dos Anjos” ainda existe,
com a mesma luz divina dos seus traços,
glorificando as dores da alma triste,
repartindo a virtude, a graça e os dons
que a palavra divina do cordeiro
prometeu aos pacíficos e aos bons 
do mundo inteiro… 

Uma nova Porciúncula, dourada
Pelos astros de mística alvorada,
Ai se rejubila,
Sob a paz de Jesus, terna e tranquila,
Derramando no além ignorado
Os sonhos da virtude e perfeição
Daquela mesma Úmbria do passado
Cheia de encantamento e de oração.

A luz dos sóis da etérea natureza, 
Numa doce e ideal eucaristia,
No seu manto de amor e de alegrias,
Inda abre os braços para os pecadores… 
O esposo da pobreza.

“Irmão sol, irmãos anjos, irmãs flores,
Não nos cansemos de glorificar
A caridade imensa do Senhor,
Sua sabedoria e seu amor,
Procurando salvar
Os nossos irmãos homens, mergulhados
Entre as noites sombrias dos pecados!… ”

E à voz suave e dúlcida do santo,
A Terra escura e triste se povoa
De anjos de amor que enxugam todo o pranto
E que levam consigo
Todo o consolo amigo
Da esperança no céu, singela e boa… 
Das paragens etéreas,
Da sua ideal igreja,
São Francisco de Assis abraça e beija
O homem que sofre todas as misérias,
Amparando-lhe a alma combalida
Nos desertos de lágrimas da vida
E o conduz
Ao regaço divino de Jesus!

Santo de Assis, divino poverello,
Nas amarguras do meu pesadelo
De vaidade do mundo que devasta
Todo o bem, vi tua luz singela e casta
Beijando as minhas lepras asquerosas… 
Uma chuva de lírios e de rosas
Lavou-me o coração de pecador
E guardei para sempre, o teu amor.
Santo de Assis, irmão da caridade,
Que me curaste as lepras e a cegueira,
Depois da morte, à luz da imensidade,
Quero ainda abençoar-te a vida inteira… 


Sertão hostil. Agreste serrania.
Tendo por companhia
A cruz do Nazareno, humilde e solitário,
Ali vivia Anchieta, o doce missionário,

Carinhoso pastor, espelho de bondade,
Abençoando o bem, perdoando a maldade,
Servo amado de Deus, imitador de Assis,
Que na humildade achara a vida mais feliz.

Naquele dia, era intenso o calor.
Ninguém. Nem uma sombra se movia.
Tudo era languidez, desânimo e torpor.
Além se divisava a solidão da estrada,

Amarela de pó, tristonha e desolada.
Na clareira, onde o sol feria os vegetais,
Viam-se florescer bromélias e boninas
E, elevando-se aos céus, esguios espinhais,

Implorando piedade às amplidões divinas..
Eis que o irmão de Jesus, 
o humilde pegureiro,
Avista um mensageiro.

Dirige-se-lhe à casa,
Pisando vagaroso o chão que o sol abrasa.
- “Meu protetor, diz ele: o bom pajé,
Convertido por vós à luz da vossa fé,

Que tem oferecido a Deus o seu amor,
Agoniza na taba, ao longe, em aflição,
Ele espera de vós a paz do coração
E implora lhe deveis a bênção do Senhor.”

— “Oh! Doce filho meu, que vindes de passagem
Que Jesus vos ampare ao termo da viagem… ”
E, isso dizendo, o pastor, prestamente,
Toma da humilde cruz do Mártir do calvário,

Abandonando o ninho agreste e solitário,
Para arrancar da dor o pobre penitente.
Há solidão na estrada,
Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos.

Que penosa jornada,
Em tão rudes e aspérrimos caminhos!… 
Pairam no ar excessos de calor,
Nem árvores com sombras e nem fontes,

Somente o sol ferino destruidor,
Que calcina, inflamando os horizontes.
Eis que a sede o devora;
Entretanto, o pastor não se deplora;

A terna e meiga efígie de Jesus,
É-lhe paz e alimento, amparo e luz.
Numa férvida prece,
Ele inda agradece.

— “Sê bendito, Senhor, por tudo o que nos dás.
Seja alegria ou dor, tudo é ventura e paz.
Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas.
No azulíneo do céu, no cálice das rosas,

Na corola de luz de todas as florzinhas,
No canto, todo amor, das meigas avezinhas.
Na estação outonal, na loura primavera,
No coração do bom, que te ama e te venera,

Nas vibrações dos sons, na irradiação da luz,
Na dor, no sofrimento, em nossa própria cruz… 
Tudo vive a mostrar tua própria bondade,
Eterno Pai de amor, de luz e caridade,

Abençoados são o inverno que traz frio
E os calores do sol nas estações do estio… ”
Terminando a sorrir a espontânea oração,
Inspirada na fé de santa devoção,

Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.
Eis que nos arredores,
Congregam-se apressadas 
Todas as avezinhas

E, asas aconchegada, Juntinhas,
Numa ideal combinação
Formam um pálio protetor
Cobrindo o doce irmão
Que ia ofertar amor,
Luz e consolação

Em nome do Senhor.
Pelos caminhos,
Foi-se aumentando
O meigo bando

Dos bondosos e ternos passarinhos,
Aureolando com amor o discípulo amado,
Modesto, casto, humilde e isento de pecado,
Que ia seguindo,

Lábios sorrindo, em meiga mansuetude.
O enviado do bem e da virtude
Agradecia ao céu, o coração em luz,
Evolando-se puro ao seio de Jesus.

Chegara ao seu destino. Ia caindo o dia… 
No poente de paz de harmonia,
Brilhava nova luz, feita de crença e amor:
Era a bênção dos céus, a bênção do Senhor… 

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