Antero de Quental
Vi um monstro pairando sobre a Terra,
Como um corvo de garras infinitas,
Cobrindo multidões tristes e aflitas:
Visão de luto e lágrimas que aterra!
Vi-o de vale em vale, serra em serra,
E disse: - “Quem és tu que abre e excitas
Os pavores e as cóleras malditas?”
E o monstro respondeu: - “Eu sou a guerra!
Não há forças no mundo que me domem,
Sou o retrato fiel do próprio homem,
Que destrói, luta e mata e vocifera!
Venho das trevas densas da voragem,
Dos abismos de dor e de carnagem
Para mostrar ao homem que ele é fera!”
Sobre o mundo de dor e de incerteza
Procurei na ciência, em toda hora,
Descobrir e tocar a sutileza
Do espírito que luta, sonha e chora;
Mas só encontrei a trágica surpresa
Da negação da luta atordoadora
Da ciência do mundo que anda presa
Sob a descrença desalentadora…
Alma cega de louco então eu era,
Que não via dos astros à monera
A mão de Deus na paz, na luz, no amor!…
E paguei caro a minha fantasia,
Escalando um calvário de agonia
Na visão desse nada enganador.
Nós não somos os mortos condenados
Aos sepulcros de treva e cinzas frias,
Tristes evocações das agonias,
Sob os dobres dos sinos de finados…
Não estamos nas lápides sombrias
Dos cemitérios ermos e isolados,
Somos somente amigos apartados
Pelo… espaço das horas fugidias.
Crede que a luta é a nossa eterna herança,
Com a qual marchamos plenos da esperança
Que une os mundos e os seres nos seus laços.
Depois da morte, a luz de um novo dia
Resplende, transbordante de harmonia
Pela serenidade dos espaços.
No mundo para vós ainda impreciso,
Que a ciência da Terra não pondera,
Eu via a morte, em forma de quimera,
Como um anjo de dor, vago e indeciso.
E murmurei: - “Ó morte, eu bem quisera
Que me desses no nada um paraíso!…
Por que, anjo na dor, se faz preciso
Da tua espada que nos dilacera?”
E ela disse: - “Sou a própria vida errante,
Vida renovadora e triunfante
Que tudo envolve em luz resplandecente,
Para que eu leve a alma à glória eleita
De ser pura e sublime, alva e perfeita,
É preciso lutar eternamente!”
Nas estradas do mundo, no infinito,
Nas incontáveis eras milenárias,
Na aluvião de ideias multifárias,
O homem é o mesmo ser errante e aflito…
E ouve-se, a todo o tempo, o estranho grito
De heroísmo das almas solitárias,
Guias de luz dos miseráveis párias,
Saturadas de amor puro e bendito.
Mas segredos eternos e divinos
Pesam sobre a balança dos destinos,
Subjugando o mundo descontente.
E a humanidade, ansiosa de bonança,
No mistério do sonho e da esperança.
Conquista o céu, lutando eternamente.
Quem sou eu? Quem sou eu? No abismo escuro
Do meu atribulado pensamento
Sinto ainda as áscuas do pavor violento
Em que andei como nau sem palinuro!
E… ouço uma voz: “Tu és verme obscuro
Vitimado no grande desalento,
Que procurou a mágoa e o sofrimento
Sem caridade, o amor sagrado e puro”.
Ó promessas do “nada” inexistente!…
A morte abriu-me as portas do presente
Amargo e interminável pela dor;
Infeliz do meu ser fraco e abatido,
Pois o anseio de nada, paz e olvido,
Foi apenas um sonho enganador!
Ouvi a voz do século exclamando:
“Ó triste geração envenenada
pela descrença sistematizada,
o teu destino é amargo e miserando.
Vives com a tua ciência arquitetando
As organizações da nova estrada
Sobre a ideia amaríssima do nada,
O caminho do abismo formidando!… ”
Apesar dos teus passos de gigante,
Chorarás quando a morte deslumbrante
Eliminar teu sonho deletério…
Cessa a vaidade da sabedoria,
Pois na luta e na dor de todo o dia,
Deus te confundirá com o Seu mistério!…
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