Abílio Guerra Junqueiro


Uni-vos sob a paz, uni-vos sob a crença,
Ó argonautas do ideal, arautos da esperança!… 
Que se realize agora o sonho da bonança!… 
Como os pães do Senhor que a fé se espalhe e vença.

Não temais combater, que o Mestre vos conduz
Com o sol espiritual que envolve o mundo inteiro;
Sede na terra verde e augusta do cruzeiro
Os soldados do amor, seareiros de Jesus!


A igreja antigamente era uma luz dourada
Que enchia os corações de paz e de esplendor,
Sublime manancial, fonte viva do amor,
Jorrando sob o sol de mística alvorada.

A palavra da fé caia como um luar 
De esperança divina, esplendorosa e doce,
Sobre as dores cruéis, mas tudo transformou-se
Quando Pantagruel apareceu no altar.

Então, desde esse dia, as dúlcidas lições
Do exemplo de Jesus, - o meigo Nazareno, -
Sumiram-se no horror do lamaçal terreno,
No multissecular mercado de orações.


Ó igreja, a tempestade imensa e escura assoma,
Apesar das funções políticas de Roma,
Enegrecendo o mundo e ensanguentando a Terra!… 

E enquanto a fome, a dor e os martírios da guerra,
Humilham sem cessar a grande massa humana,
Fazes o carnaval da comédia romana,
Onde os clowns e arlequins, pierrôs e colombinas
São grandes multidões de mitras e batinas… 

Quando a dor faz do mundo um triste sorvedouro,
Exibes sem cuidado das arcas do teu ouro!… 
Guarda-te da extorsão das listas e sacolas,
Olha o espelho de dor das lutas espanholas.

Não deves te iludir no movimento enorme!
O coração do povo é como um leão que dorme,
E o povo há de pedir!
Que a noite de hoje pague à aurora porvir!

São as ânsias sociais que Leão XIII e Pio XI
Tentaram dirimir com dogmas de bronze.

É preciso atenuar os raios da tormenta,
Com a energia do amor que salva e que alimenta,
Deixa o balcão do altar, os púlpitos e as missas,
Procura reparar as grandes injustiças!… 

Igreja, o mundo inteiro anela um novo dia,
Remodela o interior de tua sacristia,

Porque depois da treva há de haver uma luz,
Luz que há de esclarecer tua lei à socapa;
Liberta-te das mãos sacrílegas do Papa
E volta enquanto é tempo aos braços de Jesus.


Trabalhai, trabalhai, que a aurora se avizinha,
O clarão da verdade indômita caminha,
Trazendo aos corações o dia da bonança!

Formai o batalhão da paz e da esperança,
Precursores da luz dos tempos que hão de vir, 
Porque o mundo de agora é um milharal maduro,
Onde o amor de Jesus, abençoado e puro,
Vai colher o bom grão da terra do porvir.

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