Bocage - soneto I
Vive o homem no mundo sorte dura, Por estranho caminho arremessado, Fero titã cativo a negro fado, Do berço morno à fria sepultura. Triste filho dos céus, de alma perjura, Desprezível Adão acorrentado Ao desterro de sombras do passado, Respira o lodo e chora a desventura! Ao vão orgulho – a esse deus imigo, Altares vãos erige, por vaidade, Que, na treva, o mantém revel mendigo! Por mais altos pregões a fé lhe brade, Traz, desditoso, o cárcere consigo, Atado à Morte em plena Eternidade. Espírito de Manuel Maria de Barbosa du Bocage Pedro Leopoldo, 25 de novembro de 1946. Ensina que o homem é um anjo decaído, em consequência do mau uso que fez de seu livre-arbítrio: tem-se, deste modo, a figura do “pecado original”. Seu passado de culpas arremessou a criatura num mundo infeliz, onde deve expiar suas faltas em duras provas. Infelizmente, em vez de se submeter à dor, que redime, o homem se rebela por orgulho, que lhe agrava a situação, e assim prolonga seu cativeiro no cárcere da matéri...