Os outros
Dizes trazer o deserto no coração, entretanto, pensa nos outros. Muitos pisam teus rastros, procurando-te as mãos no grande vazio… Para um pouco e perceberá a presença nas sombras da retaguarda. Enquanto gritas a própria solidão, compreenderás que a voz deles está morrendo na garganta, através de longos gemidos. Volta-te e vê. Compara os teus braços robustos com os ossos descarnados que ainda lhes servem de suporte às mãos tristes em que os dedos mirrados são espinhos de dor. Enxuga o teu pranto e observa os olhos fatigados que te contemplam… Falam-te a história de esperanças e sonhos que o tempo soterrou na areia da frustração. Referem-se ao frio cortante do lar perdido e à agonia da ramagem nas trevas… Para e compadece-te. Deixa que respirem, ainda mesmo por um momento só, no calor de teu hálito. Quem poderá medir a extensão da grandeza de uma simples semente, caída na terra que o arado martirizou? A beleza de um minuto nos ensina, muita vez, a povoar de alegria e de luz a existência...