Três almas
Na antecâmara do Céu, três almas se reuniam, à espera do anjo da Passagem, que, por fim, veio atendê-las no etéreo limiar. Uma em veste branca, outra em traje dourado e a última em roupagem escura. A primeira, ostentando nívea túnica, ataviada de linfas guirlandas, erguia a desassombrada cabeça e dizia sem palavras: – “quem mostrará maior pureza que a minha”? O mensageiro acolheu-a com bondade e abriu-lhe a porta de acesso; contudo, ao transpô-la, como que aturdida por invisíveis raios, a entidade recuou, exclamando: – Não posso! Não posso!… Disparando interrogações ao vigilante fiscal, explicou-se este, afetuoso: – Realmente, envergas o manto lirial, mas o teu coração permanece pesado e escuro. A beleza de tua veste não representa virtude, porque te acovardaste ante a luta. Salvaste as aparências, à custa do suor alheio. Outros choraram e sofreram, para que te mantivesses na pureza externa. Volta ao mundo e santifica o vaso do sentimento. Adiantou-se a segunda...